Encontrando frestas: a escrita como potência de liberdade no sistema carcerário

(Esse é um repost de um texto publicado no blog "Subjetivações" da professora Aline Aveiro. Eu o escrevi durante a minha graduação em psicologia. Nesta época, eu fazia parte de um grupo de estudos e pesquisa chamado Psicologia na Interface com o Social, orientada pela profa Aline - ela esteve no auxílio deste Ensaio e a agradeço pelas partilhas inspiradoras ao longo do caminho).


“Talvez seja um caminho. Encontrar frestas, mesmo que minúsculas, encontrar frestas por onde passar, por onde começar a minar o endurecimento dos dias. Pode ser uma estratégia”.

Maira Ferreira

  

    Tomando como ponto de partida as inquietações de uma estudante de psicologia sobre o tema da liberdade e o sistema carcerário brasileiro, o presente ensaio propõe refletir de uma forma breve sobre a importância da produção da escrita no contexto da privação da liberdade como estratégia de enfrentamento aos efeitos de silenciamento das prisões. Propõe-se tal reflexão a partir da leitura e da análise de 2 obras literárias cujos temas são as práticas culturais e educativas nas prisões: “Gritos – A dramaturgia no cárcere” e “Cárcere, a prisão funciona?”. A primeira obra trata da importância da escrita dramatúrgica; enquanto que em “Cárcere, a prisão funciona?”, os autores puderam nomear por eles próprios as suas inquietações dentro do cárcere. A escolha dessas duas obras é feita como modo de ampliar e fortalecer as reflexões aqui propostas.

    O encontro com essas vozes que vêm “do lado de lá” dos muros foi acompanhado de muito cuidado: tanto no processo da leitura, quanto na produção do que veio a se tornar essa escrita-ensaio. O cuidado que se constituiu no território de escrever sobre a escrita de pessoas privadas de liberdade, pois assim como pontua Reis (2019), “precisamos estar atentos aos efeitos de nossas práticas de pesquisa, do contrário corremos o risco de produzir saberes que justifiquem “cientificamente” práticas de exclusão, de vulnerabilização, de promoção de desigualdades e violência” (p. 152). Mesmo que este ensaio não tenha a pretensão de aprofundar e “justificar cientificamente” o perigo de que as práticas de pesquisa e escrita perpetuem violência, sabe-se que o descuido de uma produção escrita produz efeitos. Por isso também que considerou-se importante a escolha dessas duas obras, pois assim as reflexões são produzidas a partir da representação das pessoas que vivenciam o sistema carcerário sendo o ambiente que eles habitam cotidianamente. 

    As obras escolhidas compõem o projeto “Oficina Literária – A formação do Eu”, desenvolvido com orientação de Alex Giostri e coordenação de João Marcos Buch na Penitenciária Industrial de Joinville-SC. Gritos – A dramaturgia no cárcere, reúne dez esquetes teatrais, construídas por cada um dos dez rapazes integrantes do projeto. São histórias diversas, em sua maioria histórias de vida, que foram transportadas para uma dramaturgia teatral, como um caminho de potencialização de atividades lúdicas, pedagógicas e de fabulação. Cárcere – A prisão funciona? conta relatos de doze pessoas, em regime fechado, sobre a funcionalidade do encarceramento. Seguindo tópicos de perguntas e respostas sobre o sistema de justiça criminal, encontramos perguntas como “Qual é a função da prisão? O que eu poderia ter evitado para não ser preso? O que precisa melhorar na vida do cárcere? Como é conviver com outros presos na mesma cela? Se você tivesse que mudar a punição derrubando a cadeia, qual seria o novo método? Qual é o papel da educação no cárcere e como deveria ser aplicada?”. As respostas foram respondidas individualmente, mas mostraram similaridades sobre o viver (n)a prisão e nomearam problemas, situações e caminhos possíveis para quem está em situação de aprisionamento. 

    Diante dessas obras e de tudo o que é apresentada ali, perguntas são feitas e refeitas. A principal, que impulsionou a escrita desse ensaio, é sobre a importância de atividades dramatúrgicas e auto representativas em espaços onde operam silenciamento e invisibilidade das vidas. 

    Caetano e Goulart (2021), afirmam a importância da escrita como sendo “instrumento de resistência” (p. 124). Isso porque a escrita de si pode ser compreendida como “uma liberdade política em termos de parresia”, a construção da liberdade da palavra, ainda que “sem jurisdição abstrata do sujeito de direitos” (Lemos, Nascimento e Galindo, 2016, p.87). Escrever fortaleceria a força política que permite enfrentar as situações adversas da vida e das relações de tensão. Daí porque ela pode ser uma arma nos processos de resistência. Além disto, a criação de dispositivos para que sujeitos e coletivos possam se autorrepresentar no mundo das existências é muito necessária pois:

(...) cremos que os sujeitos em situação de subalternidade tornam-se interlocutores cujas falas também são interessadas, políticas e produtoras/produtos de redes de poder que organizam/ hierarquizam as relações sociais” (CAETANO; GOULART, p.116) 

    A ação de narrar suas histórias, portanto, pode ser visto como um grito de expressão, um modo de subverter o espaço de privação de liberdade que insiste em ser um lugar onde não é possível criar outro mundo que não as paredes e os muros da instituição. Subverter porque a escrita se torna uma prática de cuidado de si (Lemos, Nascimento e Galindo, 2016) para aqueles que escrevem; e, porque as obras vão para o mundo explanando as situações que essa população vive, os modos de ocupar o território-prisão e suas existências. As vozes que ecoam são fruto de uma construção coletiva de escrita-potência que pode ser um modo de construir brechas para ‘ser outro’ para além do ‘ser preso’. 

    Ainda que essas atividades educativas e culturais, e sua importância, possam ser colocadas em questão, uma vez que estão relacionadas à lógica ressocializadora, dificilmente cumprirão com tal propósito, da complexa engrenagem carcerária. Ainda assim, a importância de tais atividades ganham lugar pelos efeitos da prática da escrita e da coletivização de tais escritas. De toda forma, para finalizar, é fundamental ressaltar que, mais urgente do que ações ressocializadoras, é sem dúvidas, menos cárcere.
 
Por: Gabriela Carriel Zacheu (@psinoteatro / @gabicarriel)
 
REFERÊNCIAS
CAETANO, M., GOULART, T. E. “Ensaio sobre a produção da inexistência e a potência da escrita como autoria da vida”. In: Callai, C. Ensaiar a escrita. Niterói: Eduff, 2021, p. 116-134. Disponível em: http://www.eduff.uff.br/index.php/catalogo/livros/988-ensaiar-a-escrita. Acesso em: 14 mar. 2022.
DOS REIS, Carolina. Ética na Pesquisa em Psicologia Social: 20 anos do PPGPSI/UFRGS. Revista Polis e Psique, Porto Alegre, RS, p. 149 - 161, dez. 2019. ISSN 2238-152X. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/PolisePsique/article/view/97412. Acesso em: 14 mar. 2022.
FERREIRA, Maíra. Buscando frestas — ou tentando rastejar para fora da impossibilidade. Café com caos, 2022. Disponível em: https://mailchi.mp/7daec239878b/cafecomcaos1-15274152. Acesso em: 07 mar. 2022.


GIOSTRI, Alex (org.). Cárcere - A prisão funciona?: relatos de apenados sobre o encarceramento. São Paulo: Giostri, 2018.
____________________ Gritos: a dramaturgia no cárcere. São Paulo: Giostri, 2017.
LEMOS, Flávia Cristina Silveira; NASCIMENTO, Maria Lívia do; GALINDO, Dolores. Escrita, psicologia e produção de cuidado: ética, estética e política. Arq. bras. psicol.,  Rio de Janeiro ,  v. 68, n. 1, p. 84-94, abr.  2016 . 
 


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