Frestas na máquina: a cena e a escuta como oficinas de vontades
Cena 1 M. estava indo, pela primeira vez, a uma aula de teatro. Inscreveu-se, segundo ela, porque sempre teve vontade de saber como era fazer teatro. Depois de um dos exercícios propostos, compartilhou sua impressão: disse que percebia como a atividade exigia uma atenção plena ao momento presente. Quando se distraía, o jogo simplesmente não acontecia. Outras alunas fizeram coro à sua fala. Contaram que, por vezes, pensamentos as capturavam e as levavam para fora dali: afazeres domésticos esquecidos, problemas a resolver, demandas à espera. Bastava esse pequeno deslocamento para que algo se perdesse. O corpo permanecia, mas a presença não. Foi a partir dessa cena que algo me chamou atenção: estar ali exigia sustentar uma disponibilidade singular. Uma abertura. Uma atenção que não estava voltada para produzir, resolver ou antecipar, mas para experimentar. Cena 2: Escrevo diários de aula desde que comecei a conduzir encontros, em 2022. Esses tempos, movida por esta e outras escrit...