Frestas na máquina: a cena e a escuta como oficinas de vontades
Cena 1
M. estava indo, pela primeira vez, a uma aula de
teatro. Inscreveu-se, segundo ela, porque sempre teve vontade de saber como era
fazer teatro. Depois de um dos exercícios propostos, compartilhou sua
impressão: disse que percebia como a atividade exigia uma atenção plena ao
momento presente. Quando se distraía, o jogo simplesmente não acontecia. Outras
alunas fizeram coro à sua fala. Contaram que, por vezes, pensamentos as
capturavam e as levavam para fora dali: afazeres domésticos esquecidos,
problemas a resolver, demandas à espera. Bastava esse pequeno deslocamento para
que algo se perdesse. O corpo permanecia, mas a presença não.
Foi a partir dessa cena que algo me chamou atenção:
estar ali exigia sustentar uma disponibilidade singular. Uma abertura. Uma
atenção que não estava voltada para produzir, resolver ou antecipar, mas para
experimentar.
Cena 2:
Escrevo diários de aula desde que comecei a conduzir encontros, em 2022. Esses tempos, movida por esta e outras escritas, voltei a eles. Relendo, encontrei uma passagem em que escrevia sobre a beleza de observar as alunas conversando após os exercícios. Elas comentavam sobre nunca terem imaginado que conseguiriam fazer certos movimentos, ou “ir tão longe” na própria imaginação. Em outro trecho, anotei a surpresa que surgia quando percebiam que conseguiam fazer algo que, antes, pareciam não dar conta. Uma delas disse estar impressionada com a quantidade de ideias que haviam criado juntas. Outra falou da sensação de que algo se tornava possível quando estavam ali, em coletivo. Havia, nessas falas, o espanto diante da inauguração de vontades, ideias, interesses, de novas sensações, afetos, que eram sustentados naquele espaço.
Pensar o teatro como uma oficina de ideias,
interesses e vontades me levou, então, a uma provocação: que outros lugares
também poderiam operar assim? A clínica, a terapia, aparecem como alguns desses
lugares possíveis. Espaços que possibilitam, também, o surgimento de algo que
não está dado de antemão.
Talvez o que aproxime esses espaços seja a
possibilidade de abrir frestas para a produção de fluxos de pensamento, de
imaginação, de desejo. Fluxos que, na maior parte do tempo, encontram-se
capturados.
Vivemos em uma sociedade organizada para capturar nossa atenção, nosso tempo, nossa energia e nossa imaginação. O capitalismo, mais do que um sistema econômico, é uma forma de relação social que transforma nossa força de trabalho, nossas trocas, nossa criatividade e até nossos desejos em mercadoria. Uma máquina que se alimenta de nossa potência, enquanto esvazia e restringe nossas possibilidades de criar.
Nesse contexto, ideias, interesses e vontades
tendem a ser encobertos. Não porque não existam, mas porque são constantemente
desviados, acelerados, instrumentalizados.
Vai-se perdendo, aos poucos, a possibilidade de perceber o que realmente nos
move.
É justamente aí que o teatro e a clínica podem se
tornam espaços potentes. Ao funcionarem como oficinas, e não como lugares de
adequação, eles podem abrir caminhos para a liberação e produção desses fluxos.
No teatro, experimenta-se o corpo, o tempo, a presença, a imaginação. Na
clínica, experimentam-se palavras, silêncios, narrativas, afetos, modos de
existir.
Sustentar esses espaços como lugares de experimentação é, portanto, um gesto político. Um ato de resistência. Talvez até um gesto revolucionário. Não porque prometam salvar alguém ou transformar o mundo de forma grandiosa, mas porque insistem em algo cada vez mais raro: criar condições para que ideias, interesses e vontades possam emergir e encontrar espaço.
Por: Gabriela Carriel Zacheu @psi.teatro
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