Nunca é a mesma cena: clínica, teatro e o risco do encontro.
Estou fazendo parte de uma peça teatral chamada As três Marias[1] que está prestes a completar seu centenário em setembro
deste ano. Dessas 100 apresentações e dezenas de cidades que já passamos,
estive em cena em quase 80 delas. Para nós, artistas da cena, repetir tantas vezes é uma experiência de ganhar
corpo e maturidade cênica.
Mas, estive pensando esses dias na loucura que
é fazer tantas apresentações da mesma peça e ela nunca
ser a mesma. Tento explicar: Cada apresentação é única, porque cada encontro
com o outro é único. Todas as vezes que nos dispomos em cena para o risco do
encontro com a plateia, algo novo pode acontecer. Mesmo com o mesmo texto, o mesmo
corpo, a mesma luz. A presença nunca se repete. Há algo do risco, do acaso, do
que escapa. Nenhuma apresentação é igual à outra.
Na clínica, venho fazendo fronteira com o teatro em mim. Não no sentido performático da coisa, mas no sentido de que a clínica também é um acontecimento que exige presença - porque a clínica, assim como a cena, é lugar de presença, de escuta e de coragem para estar junto do outro. E também de permitir que o risco do encontro possa produzir algo. Um encontro que é único, apesar também de suas repetições - que produz fluxos, afecções, intensidades. E que carrega, assim como na cena, tudo aquilo que escapa: as pausas, os gestos, os silêncios, os lapsos, o corpo que pode falar antes mesmo da palavra. O que pode nascer dali?
Lembro de um texto que li em um grupo de estudos, em que o filósofo Candiotto comenta uma ideia de Foucault: a “inquietude permanente”[2] como forma de cuidado de si. Essa expressão ficou em mim. Estar corporalmente em inquietude permanente talvez seja isso: uma forma de presença ativa - estar em cena e em escuta, improvisando a cada novo movimento, se deixando afetar, se questionando ativamente diante da vida - coletivamente.
Há uma parte do trabalho clínico e cênico que não se ensina - mas se vive. Exige atentividade, improviso, esse não saber: o risco. Porque mesmo que você esteja equipado com as suas ferramentas-teorias, é preciso abrir espaço para a invenção. É nessa brecha que algo se cria – em mim também.
A clínica como um acontecimento de criação, um campo cartográfico, não se tratando de interpretar, mas de mapear fluxos, compor com aquilo que pulsa, criar outros mundos possíveis. E é justamente por permitir que a criação assuma o risco que ela pode se inventar no instante.
E é aí que me vem algumas perguntas, que eu não sei
muito bem como sintetizar, mas vou tentando por aqui: O que pode se transformar
quando pensamos a clínica como espaço de criação, e não só de escuta? Como o não-saber
ou o risco pode ser um lugar frutífero tanto para quem atua e para quem escuta?
Enfim, assumo também essas perguntas por aqui como um jeito de abrir espaços e
como um exercício de escrita mesmo, nesse diário-blogger.
Uma clínica que escreve mundos possíveis, que inventa novos modos de estar, assim como na cena. Toda escuta é uma estreia.
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