Quando o terceiro sinal toca: Fronteiras entre a clínica e o teatro.

O horário do atendimento se aproxima.

O primeiro sinal toca: eu me sento diante da tela já acesa.
O segundo sinal toca: respiro fundo e envio o link da sala.
O terceiro sinal toca: está iniciada a sessão.

No teatro, esse é o instante em que algo se desloca no corpo do artista, é como se fosse a travessia de um limiar, o risco da cena.
Na clínica, algo vibra no corpo do analista, no corpo do analisante e entre eles. É a abertura de um espaço em que algo ainda está por vir.

Em ambos os espaços, algo acontece no corpo todo.

Ultimamente, venho pensando em quais fronteiras dialogam com a minha clínica: O que é que toca, o que é que compõe e contorna a sua escuta?

As minhas fronteiras passam pela arte, pelo teatro. Eu sou atriz há alguns bons anos, a psicologia surgiu depois, mais recentemente.

O terceiro sinal no teatro é um ritual. Depois dele, é iniciada o espetáculo teatral. Fiquei pensando nesse ritual do “terceiro sinal” na clínica como sendo um convite a sustentar devires-outros, a escutar não o que já somos, mas aquilo que ainda não tem forma.
Como diz Suely Rolnik: a vocação da análise não é dizer o que somos, mas sim promover a escuta daquilo de que estamos em vias de diferir (ROLNIK, 1995).
É um exercício fronteiriço - entre arte e clínica, entre vida e criação, que se arrisca a abrir espaço para mundos que ainda não existem.

Ou seja, esses espaços podem ser fazedores de outros mundos possíveis, abrindo espaço para que a vida possa ser simbolizada de jeitos diferentes.

Essa fronteira entre arte e clínica eu venho descobrindo aos poucos – a cada pessoa que chega, a cada escuta em que me esforço por abrir não só os ouvidos, mas o corpo inteiro para estar presente.

E talvez, para mim, ser psicóloga venha sendo isso: atravessar, a cada encontro, o terceiro sinal, para que o imprevisível da vida possa encontrar cena, corpo e voz.


REFERENCIAS 

ROLNIK, Suely. O mal estar na diferença. Revista Chiméres. 1995.

Por: Gabriela Carriel Zacheu (@psinoteatro / @gabicarriel)

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