O giro que antecede a aventura: Experimentando a desorientação

 

“Toda grande viagem começa com desorientação. Crianças

giram naturalmente umas às outras de olhos vendados antes

de uma aventura. Alice cai na toca de um coelho e muda de

tamanho ou viaja através de um espelho e entra em seu país

das maravilhas. Nós todos, público e artistas, temos de permitir

que uma pequena desorientação pessoal prepare o caminho

da experiência.” (Bogart, 2011, p. 75)

 

Em um dos capítulos de A preparação do diretor, Anne Bogart conta que passou muitos anos praticando aikidô, uma arte marcial japonesa. Nos treinamentos, o corpo é frequentemente colocado de cabeça para baixo, em situações de desequilíbrio e desorientação - não como erro, mas como parte do aprendizado. Anne percebe, então, que essa experiência atravessa seu fazer artístico: para se aproximar do material de uma peça, era preciso, antes, perder certas referências.

Há algo de profundamente interessante nessa ideia. Em vez de buscar firmeza, equilíbrio ou domínio, Anne aposta no momento em que o corpo já não sabe exatamente onde está. Como se fosse ali, nesse pequeno desvio, que algo pudesse finalmente se mover.

É esse lugar que me interessa para pensar também a clínica. A direção, tanto na cena quanto na clínica, não aponta o caminho. Ela cria as condições para que alguém se desoriente o suficiente para que algo novo possa acontecer.

Pensar a desorientação como ferramenta do trabalho abre uma pergunta ética para a clínica. O que fazemos quando alguém perde, ainda que por um momento, suas coordenadas conhecidas? Em vez de oferecer rapidamente um chão, talvez o gesto esteja em acompanhar esse deslocamento, sustentando a queda sem transformá-la em erro, permanecer junto enquanto outros rumos se inventam.

Talvez seja menos sobre levar alguém a um lugar e mais sobre sustentar os momentos em que o chão conhecido já não se sustenta. É apostar que o desconhecido seja tão frutífero quanto o conhecido e que ele pode ser uma aventura, uma potência de descobertas e invenções, um chão novo a pisar... devagarinho.

Estar de cabeça para baixo talvez não seja a posição desconfortável, apenas uma outra forma de orientação, enquanto um novo chão se inventa. 


REFERENCIAS

BOGART, Anne. A preparação do diretorSete ensaios sobre arte e teatro. 1. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.


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